A folha em branco está a dar cabo de mim
Hey,
Ontem à noite estava deitado na cama, a cabeça a rodar. Não sobre problemas. Sobre possibilidades. Que agente lanço amanhã. Que skill posso criar. Que projeto posso avançar. Tudo ao mesmo tempo, tudo a competir pelo mesmo espaço mental. O corpo a pedir descanso e o cérebro a recusar desligar.
Não é stress. Não é burnout. É outra coisa.
É a ansiedade de quem tem demasiadas opções.
O limite que desapareceu.
Até há pouco tempo, eu tinha um teto natural. As horas do dia, a minha capacidade técnica, o número de coisas que conseguia fazer sozinho. Esse teto funcionava como uma grade de proteção: limitava o que eu podia escolher. Se eu não sabia programar, não dizia que sim a projetos técnicos. Se o dia tinha oito horas produtivas, eu escolhia duas ou três prioridades e avançava. O teto era frustrante, mas era claro.
Esse teto já quase não existe. Com agentes, consigo produzir mais com as mesmas horas e abraçar projetos que antes nem considerava. Há seis meses, se alguém me pedisse para construir um sistema de tracking completo, eu diria que não era o meu terreno. Hoje mando um agente pesquisar, crio um para me ajudar a decidir, e mando outro executar. Em 30 minutos.
Faço mais com o mesmo tempo e tenho mais opções sobre o que fazer. No papel, parece uma notícia extraordinária. Não é bem o que estou a sentir.
Escrevi uma coisa no outro dia que me ficou a martelar: "A sensação da folha em branco está a dar cabo de mim." Tenho uma tendência obsessiva para a possibilidade. A liberdade de escolher é o valor que mais protejo na minha vida. Sempre foi. Mas agora essa liberdade está a virar-se contra mim. Quando tudo é possível, escolher torna-se insuportavelmente difícil. Decisões estratégicas, decisões pequenas, pontuais, tudo parece viável, tudo parece urgente e, no fim do dia, apetece-me fechar tudo e ficar em silêncio.
Se a limitação desaparece, a escolha aumenta.
E se a escolha aumenta, a ansiedade vem atrás.
Nunca estive tão focado. E nunca me senti tão inquieto.
Nunca tive um período de foco como o que estou a viver. Chego às oito e meia da manhã, saio às seis e meia da tarde, completamente absorvido. Há dias em que me esqueço de almoçar.
E mesmo assim, quando paro, a cabeça continua. Quando me deito na almofada, estou a pensar que agentes tenho de pôr a trabalhar no dia seguinte, que skills preciso de criar, como posso ser ainda mais eficiente. A Rita já notou. Há noites em que estou fisicamente na sala, no sofá, com ela, mas mentalmente estou noutro sítio a desenhar o próximo workflow. No outro dia perguntou-me se estava tudo bem. Ela sabe que nestes momentos preciso de chegar sozinho às respostas. Não insiste. Mas percebe. E os miúdos, felizmente, não dão muito tempo para respirar nos problemas. Chegam, interrompem, e o mundo volta ao sítio por uns minutos.
Termino uma coisa, e antes de celebrar já estou a pensar na próxima. A resolução de um problema gera imediatamente consciência de três outros. A velocidade de execução alimenta a velocidade de pensamento. E a velocidade de pensamento alimenta a ansiedade.
E quando ponho três ou quatro agentes a correr em paralelo, em projetos diferentes, percebo onde está o verdadeiro gargalo. Não é a execução. Eles gerem o contexto de forma individual, cada um no seu universo, mas eu preciso de ter todo esse contexto ao mesmo tempo. O limite está na minha elasticidade mental, na quantidade de contexto que consigo manter em simultâneo. E esse limite é biológico, não tecnológico.
É como gerir uma equipa que nunca dorme e nunca para de fazer perguntas inteligentes. Com colaboradores humanos, havia pausas naturais: alguém vai almoçar, alguém sai às seis, alguém precisa de processar antes de responder. Com agentes, a cadência é implacável. Eles estão sempre prontos. E isso coloca a pressão toda do lado da minha capacidade de pensar e dirigir.
O filtro mudou.
Nós já passámos por isto. Tivemos de aprender a lidar com a informação infinita, com as redes sociais, com o facto de estarmos sempre conectados. A sociedade lá se adaptou. Mas não sem consequências.
Agora estamos a entrar numa nova camada. A capacidade de fazer desproporcionou relativamente à capacidade de decidir o que fazer. O tempo que vai da ideia à execução encurtou tanto que já não funciona como filtro. Há um ano, a maioria das ideias morria na gaveta porque não havia como as executar. A fricção funcionava como curadoria natural. Agora, qualquer ideia pode virar projeto numa semana. O filtro já não é "consigo fazer isto?". O filtro é "devo fazer isto?". E esse filtro exige uma clareza mental que nenhuma ferramenta consegue dar.
Este fim de semana tive de me obrigar a desligar. Tive mesmo de me forçar. Porque parece que é só um clique, parece que é só mandar fazer, mas entre mandar fazer é preciso pensar no quê. E quando desligo o computador, quando largo o telemóvel, continuo a refletir sobre o que vou mandar fazer a seguir. O facto de não seres tu a executar não significa que o tópico desapareça da tua cabeça.
E enquanto me obrigava a parar, lembrei-me de uma coisa que não quero perder de vista: o negócio é um veículo. Não é o destino. É um veículo para projetar a minha vida pessoal, para fazer coisas com a minha família, para viajar, para ter liberdade. E começou também a ser um veículo de expressão. Isso importa-me agora mais do que nunca. Os limites estão a mudar, as possibilidades multiplicam-se, e o nosso cérebro provavelmente não foi desenhado para lidar com esta abundância de opções da mesma forma que não foi desenhado para lidar com feeds infinitos de conteúdo.
A ansiedade da escolha vai ser o próximo grande desafio de quem trabalha com estas ferramentas. Não é uma questão técnica. É uma questão humana. E, ao contrário dos problemas técnicos, esta não se resolve com mais ferramentas. Resolve-se com mais clareza. Com a disciplina de dizer não a coisas boas para proteger as coisas certas. Ainda estou a aprender.
Se estás desse lado a sentir o mesmo, não estás sozinho.
E escolher nunca foi tão difícil.
Abraço,
Luís Diogo