A IA está a baixar a média da minha empresa

Share

Hey,

Esta semana percebi uma coisa que não esperava: a IA estava a baixar a média de qualidade da minha empresa.

Não a quantidade de output, não a velocidade. A média. O critério com que as pessoas que escolhi a dedo tomam as decisões.

E o mais estranho é de onde vem o aviso. A WhiteFlow é AI first. Já não empurro inteligência artificial em ninguém, a mentalidade está instalada e há coisas que só acontecem aqui através de IA. É por estarmos à frente na curva de adoção que começo a ver padrões que ainda não estão à vista de quase ninguém.

Uns são positivos. Outros não. Este é o pior de todos, e tive de escrever uma regra interna para o travar.

A inteligência do passado é barata

Esta semana ficou-me uma frase do Dan Shipper, o CEO da Every. A IA é, no essencial, uma resposta ponderada com base na informação do passado. O treino é feito sobre tudo o que já foi escrito, decidido, codificado. Estamos a comprar inteligência passada a um custo muito baixo.

Útil. Mas a pergunta que me interessa é outra: para as decisões que preciso de tomar no futuro, a inteligência do passado chega?

Não. O futuro tem cenários novos, contextos que não estão em lado nenhum, perguntas que o passado nunca enfrentou. Não existe uma resposta arrumada lá atrás para tudo o que vem aí. A inteligência do passado serve para ir buscar padrões e questionar as minhas decisões, não para as tomar por mim.

E é aqui que está a armadilha. Quando uma ferramenta te dá uma resposta razoável em dois segundos, é quase irresistível aceitá-la como se fosse tua.

Delegar o pensamento e a decisão baixa a média da empresa

A empresa decidiu juntar, filtrar e investir muito em proteger um grupo talentoso de pessoas para decidir o nosso caminho. Não decidiu juntar um grupo de agentes para o fazer. Escolheu pessoas, de propósito, para terem critério.

Mas sem controlo acontece o contrário. Quanto mais conhecimento técnico se acumula, mais tentador é subsidiar o pensamento à máquina. E quando isso acontece, baixam a sua média e a da empresa ao mesmo tempo. Ficamos como qualquer outra empresa sem critério, e perdemos o ponto que nos dava vantagem.

Há uma diferença gigante entre discutir com a IA, procurar lados cegos na minha opinião, pesquisar, executar, automatizar, e pôr a IA a decidir por mim. A primeira lista amplia o humano. A última apaga-o.

Porque comunicação é treino. Pensamento é treino. Decisão é treino. Precisamos de repetições para evoluir a capacidade cognitiva, e quem delega essas repetições à máquina para de treinar sem dar por isso. O critério que demorou anos a construir começa a atrofiar à mesma velocidade a que a IA o substitui.

Há ainda uma parte que quase ninguém vê. Quando alguém me entrega a opinião do agente em vez da sua, parece que fica livre de responsabilidade. Mas eu, enquanto líder, nunca vou conseguir responsabilizar um agente. Quando publicamos alguma coisa dentro da empresa, publicamos com a nossa autoridade por trás.

E se perco o rasto de quem decidiu o quê, perco a coisa mais valiosa que uma empresa tem. Como é que distingo as opiniões mais maduras, as que acertaram mais vezes ao longo do tempo, se já não sei se foi o Jaime, a Ana ou o token a falar? Esse layer é tudo. Sem ele, ficamos todos com a mesma voz cinzenta, e a empresa deixa de saber em quem confiar.

Usar a IA sem lhe entregar a decisão

Não se trata de não usar IA. Nós incentivamos, investimos para que a equipa a use em muitas áreas do trabalho, e vamos continuar a tocar nessa tecla. O problema não é a ferramenta. É entregar-lhe a parte que nunca lhe devia ser entregue.

A regra que escrevi traduz-se numa sugestão prática: separar o trabalho em duas fases. Na primeira, usar a IA para esticar, questionar e destruir as próprias intuições, ir à procura dos lados cegos. Na segunda, expor a opinião final, escrita pela pessoa, com a voz dela. Se citar o agente, deixar isso claro e separado do pensamento geral.

Feito assim, o output fica melhor do que era. Uma fase a atacar as minhas próprias ideias, outra a comunicá-las com clareza. A simbiose como deve ser: a máquina a desafiar, o humano a decidir.

E é por isso que prefiro ler um texto com gralhas, porque foi escrito depressa, a um texto perfeito que é vazio de opinião e nem sequer é a opinião da pessoa. A gralha diz-me que os dedos não acompanharam o pensamento.

A pergunta que fica para a equipa é desconfortável de propósito: se delegam o vosso critério aos tokens, porque é que a empresa há de precisar de vocês?

Preciso da decisão humana. É por isso que estou a redirecionar a equipa antes que o erro se instale.

Daqui a dois ou três anos, isto vai ser uma questão central em quase todas as empresas. Estamos só um pouco à frente na curva, por isso já o sentimos. E não sou imune. Faço um esforço consciente para não delegar o pensamento: escrevo no papel, dou voltas sem nenhum dispositivo comigo, deixo silêncios premeditados na agenda. É de lá que vêm os ângulos únicos, os que numa conversa com a IA eu nunca alcançaria.

Porque a inteligência do passado é barata e está disponível para toda a gente. A média da empresa, essa, ainda depende de quem se recusa a deixar de pensar.

Abraço, Luis Diogo