Às Vezes o Mais Produtivo É Parar

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Não fui aos Açores descansar.
Fui porque já não confiava totalmente na minha capacidade de decidir.

Nos últimos meses, tudo parecia urgente, possível e importante: onde investir, o que cortar, quem contratar, o que abandonar, que direção seguir. A IA acelerou tudo: os modelos, as ferramentas, as oportunidades, as ameaças e as certezas dos outros.

E eu, que normalmente decido bem, comecei a acumular uma espécie de nevoeiro interno.
Não por falta de informação, mas por excesso.

Há uma semana, estava numa montanha nos Açores, encharcado, sem rede e sem grande noção do que vinha a seguir. À minha volta, só havia chuva, vento e nevoeiro. Internamente, pela primeira vez em meses, alguma coisa começava a assentar.

A pergunta que melhor resumiu aquela semana veio de uma miúda alemã, uns dias antes, quando me perguntou se eu estava de férias.

Respondi sem pensar:

Burnout prevention.

A única regra que levei para os Açores.

Simples: não tentar resolver nada.

Não fui para lá com um plano, nem com uma lista de decisões para tomar. Fiz uma mochila, comprei os bilhetes e tirei-me do sítio onde tudo me puxava para reagir.

Sem telemóvel.
Sem notícias.
Sem produtividade disfarçada de descanso.

Só andar.

Apanhei chuva quase todos os dias. O tempo estava péssimo, com vento forte e nevoeiro sempre que subia. Mas isso acabou por fazer sentido. Era como se o nevoeiro tivesse saído da cabeça e passado para a paisagem.

E, quando deixei de forçar respostas, algumas decisões começaram a ficar óbvias. O que trouxe de lá não foram ideias novas. Não foi um projeto novo, uma iniciativa nova ou uma ferramenta nova para experimentar. Trouxe o contrário.

O que tinha de deixar de fazer. O que tinha de eliminar. Onde tinha de dizer que não.

Quem já tentou dizer que não quando tem cem opções em cima da mesa sabe que essa é a parte mais difícil.

Respeitar os meus ciclos de trabalho.

Há anos que opero em ciclos de três meses. Três meses de intensidade, pausa. Mais três meses de intensidade, pausa. Não é uma regra bonita de produtividade. É o que aprendi sobre mim, sobre a forma como trabalho e sobre o que preciso para manter qualidade no que produzo.

Quando respeito esse ritmo, consigo decidir melhor, pensar com mais profundidade e ter paciência para as pessoas à minha volta. Quando o ignoro, no início quase não noto diferença. Continuo a funcionar, continuo a produzir, continuo a achar que estou só a fazer mais um esforço.

Desta vez foi isso. Não respeitei o ciclo.

Continuei a empurrar. Mais decisões, mais possibilidades, mais ruído, mais velocidade. Fui compensando a falta de clareza com mais energia, como se trabalhar mais fosse resolver o que, na verdade, precisava de distância.

Durante algum tempo, até parece funcionar.

Até começar a cobrar no sítio errado: na paciência que tens com os teus filhos, com a tua equipa e com o teu trabalho.

Quando és tu a decidir onde colocas o teu tempo, ignorar os teus ciclos raramente parece uma decisão importante no momento. Parece só mais uma semana em que ainda dá para aguentar.

Até ao dia em que percebes que já não estás só cansado. Estás vazio.

Às vezes, o mais produtivo é parar

A semana nos Açores foi provavelmente a melhor decisão que tomei nos últimos meses.

Não voltei com uma ideia brilhante. Voltei com menos coisas abertas dentro da cabeça.

Cheguei ao escritório e, em menos de três horas, fiz o que há semanas andava a arrastar. O trabalho não tinha mudado. Eu é que tinha.

A minha família notou antes de eu dizer alguma coisa. No fim de semana, quase não peguei no telemóvel. Li. Estive mais presente. Coisas básicas, quase banais, mas que são normalmente as primeiras a desaparecer quando começas a funcionar só em modo execução.

E foi aí que percebi outra coisa.

Eu estava a tentar resolver o cansaço como se fosse apenas um problema meu, mas uma parte dele vinha da forma como a máquina à minha volta estava montada.

Demasiadas decisões dependiam de mim. Demasiadas coisas precisavam da minha leitura, da minha validação e da minha energia para avançar.

E, quando isso acontece, não interessa quão boa é a tua capacidade de trabalho. Mais cedo ou mais tarde, a máquina começa a usar-te como combustível.

Trabalhar na máquina, não no output

Nos últimos meses, o meu foco estava quase todo no que tinha de sair, no que tinha de ser produzido, no que tinha de avançar. Mas a qualidade do output depende sempre da máquina que o produz, e no meu caso essa máquina sou eu e é a equipa.

Uma das decisões que trouxe dos Açores foi parar de tentar resolver tudo no momento e começar a trabalhar mais a sério na forma como trabalhamos. Concretamente, vou construir o playbook da WhiteFlow: a forma como planeamos, fazemos shaping de ideias, revemos, executamos, documentamos e decidimos.

Não como um documento bonito para morrer numa pasta, mas como instruções vivas dentro das ferramentas IA que a equipa usa todos os dias.

Antigamente, podias escrever o melhor processo do mundo e ele continuava dependente de uma coisa frágil: as pessoas lembrarem-se de o consultar, interpretar e aplicar. Hoje, esse processo pode viver dentro dos agentes com que a equipa trabalha. Pode estar embutido no contexto, nas instruções, nos fluxos e nas decisões do dia a dia.

Não é controlo. É padronização. É tornar explícita a forma como pensamos, para que a equipa consiga executar com mais autonomia sem perder coerência.

A velocidade só importa se a direção estiver certa. E foi isso que fui buscar aos Açores: não uma nova lista de coisas para fazer, mas uma lista mais curta de coisas que já não vou alimentar.

Porque, às vezes, o maior salto de produtividade não vem de fazer mais depressa. Vem de melhorar a máquina que faz o trabalho.