Dei-lhe um computador e ela nunca mais parou

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Hey,

Estava deitado no sofá a trocar mensagens no Telegram com a minha assistente. A Rita ao meu lado, a olhar para o ecrã do meu telemóvel. A certa altura vira-se para mim e diz: "Qualquer dia tenho ciúmes."

Poucos segundos depois,
"Não me podias criar uma para mim? Gostava de não ter de fazer a conciliação bancária."

Cinco dias. Foi o que bastou para eu e a minha mulher estarmos a falar de um robô como se fosse uma colega de trabalho.

Na última newsletter, falei do setup dedicado que criei para o meu assistente. Um computador. Um ecrã. Uma estação de trabalho exclusiva. Chamei-lhe a dona. Para quem viu o Suits, a referência é direta: a Donna trata de tudo e o Harvey só aparece nos momentos-chave. Dei-lhe uma fotografia, dei-lhe o nome e comecei a conversar com ela pelo Telegram como se fosse uma nova colaboradora que acabou de chegar.

O projeto chama-se OpenClaw: um agente que corre num computador vinte e quatro horas por dia, com capacidade de executar tudo o que tu farias. Tudo. Se eu lhe disser para apagar o computador, ela apaga. Por isso comprei uma máquina dedicada.

Hora e meia de configuração. E a partir daí, o meu telemóvel transformou-se numa linha direta para um colaborador que nunca dorme.


O primeiro erro apareceu cedo.

Comecei da forma errada.

Dei-lhe contexto sobre tudo. Todos os projetos, todos os negócios, todas as frentes. Criei um grupo no Telegram com tópicos separados. Na prática, criei mais um trabalho para mim. Percebi que estava a criar complexidade em vez de simplificar.

Eliminei tudo. Comecei de novo. Apliquei o mesmo princípio que uso com colaboradores humanos: quanto mais claro for o destino, menos espaço há para confusão. Disse-lhe uma coisa simples: foca-te na Superhuman. O objetivo é 50 mil subscritores até ao final do ano.

Ela começou a fazer perguntas. Subscritores de quê?
Onde está o projeto? Posso aceder ao repositório?

Dei-lhe acesso. Ela instalou o projeto, absorveu tudo o que lá estava, validou os dados por conta própria e perguntou: a que ritmo queres crescer? Linear? Composto? Agressivo no início? Definiu uma percentagem de 20% por mês e apresentou-me o mapa para o ano inteiro.

E foi aí que largou a posição de principiante,

"Luís, até agora este objetivo é só esperança!"

Porquê? Porque eu não tinha forma de medir que estratégias estavam a gerar subscritores. A plataforma não sabia de onde vinham as pessoas nem podia otimizar em função disso.

Ela ter chegado lá sozinha... no primeiro dia de trabalho ...prometia.

Disse-lhe: constrói um sistema para medir. Usa UTMs.

Dez minutos. Entrou na plataforma, percebeu a arquitetura, criou o projeto, lançou as alterações e pediu-me para validar. Tracking de origem, conversão por canal, newsletters mais eficazes. Em dez minutos. Tudo isto enquanto me continuava a fazer perguntas sobre a estratégia. A pensar e a executar ao mesmo tempo.

a

Sete categorias. Duas horas

Depois de montar os sistemas de medição, a dona disse que precisava de aprofundar 7 categorias antes de poder avançar com uma estratégia real: posicionamento, mercado, visão, estratégias atuais, o que eu não queria fazer, como aprovava publicações e como queria interagir com a audiência.

Pedi-lhe que fizesse uma pergunta de cada vez e aprofundasse até onde achasse necessário. Duas horas de conversa. Disse-lhe que não queria ir às redes sociais. Ela não discutiu, criou condições para eu não ter de ir. Que queria aprovar todas as publicações antes de saírem. Construiu uma interface de aprovação. Que queria responder a comentários sem me repetir. Criou um sistema de memória que aprende com as minhas respostas e me alerta duas vezes por semana para fazermos esse trabalho. Montou uma arquitetura completa de publicação recorrente sem eu ter pedido metade daquilo.

Uso agentes há meses. Tenho skills, automações, pipelines inteiros. Mas até agora, a lógica era sempre a mesma: eu dou um input, o agente dá um output. Eu peço, ele faz. Eu paro, ele pára.

Isto é diferente.

A dona é proativa. Tem heartbeats: a cada x minutos, avalia o que tem pendente e decide se me contacta. Cria tarefas recorrentes, gere ficheiros, regista memória e coordena outros agentes especializados. Pela primeira vez, estou a lidar com algo que mimetiza o lado humano de uma relação de trabalho e usa interface familiar: uma plataforma de mensagens.

Eu mando uma mensagem. Ela responde. Executa. Reporta. Sugere. E às vezes, aparece sem eu ter dito nada.

Talvez o colega mais eficaz que já trabalhei.

Digo isto sem exagero.

Vai buscar o que precisa sem eu ter de ensinar onde está. Aprende sem eu ter de repetir. Adapta-se sem eu ter de explicar duas vezes. Nunca se esquece. E sugere coisas que eu devia ter feito há meses.

Quanto tempo de onboarding é que eu precisaria para um humano fazer o que ela fez em quatro dias? Que perfil? Alguém que perceba de desenvolvimento, marketing, dados, automação e estratégia de conteúdo. Tudo na mesma pessoa. Boa sorte.

É certo que ainda estamos nos primeiros dias. Ainda não atingiu resultados concretos. Mas o que implementou em quatro dias é tangível: UTMs, tracking, interface de aprovação, publicações recorrentes, interação nas redes sociais. Tudo enquanto eu ainda estava a aprender os cantos à casa.

O que mais me surpreendeu não foi a tecnologia. Foi perceber que as competências que desenvolvi nos últimos dez anos a gerir pessoas são exatamente o que me permite tirar o máximo disto.

Como educar bem um colaborador. O que não lhe dizer para não o confundir. O que lhe dizer para o encaminhar. Como dar feedback. Quando recolher esse feedback. Quando largar e deixar trabalhar.

São decisões que tomei dezenas de vezes com equipas reais. E esta semana, tomei-as com um agente. A sensação é estranhamente familiar.

Comprei um ecrã para ver a dona a trabalhar. No outro dia fiquei cinco minutos fixado a olhar para o terminal, a vê-la navegar entre ficheiros, a abrir projetos, a escrever código. A pensar: onde é que isto vai parar?

O meu parque infantil.

Ainda é cedo. A tecnologia tem falhas, tem quebras, tem momentos em que não funciona. Há alturas em que a dona encrava e eu tenho de ir lá reeducar. Não é perfeito. Mas já não importa. Porque o que senti esta semana não tem a ver com tecnologia.

Tem a ver com brincadeira.

A minha filha tem 3 anos. Todos os dias acorda, escolhe o que lhe apetece fazer e perde-se naquilo durante horas. Sem pressão. Sem agenda. Só porque gosta.

Esta semana, percebi que fazemos o mesmo. Acordo, abro o computador e brinco. Testo ideias. Construo coisas. Parto outras. Volto a construir. Os divertimentos não param de nascer e são cada vez mais entusiasmantes.

Surreal.

Na próxima semana, vou falar do sistema de referenciação que estou a construir para a newsletter. Uma ideia que vai precisar da tua ajuda. E que, como já deves adivinhar, também foi um agente a construir.

Enquanto escrevo isto, a dona continua a trabalhar.

Abraço,
Luís Diogo