Ela achou que eu era um agente.

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"Tens que melhorar o agente. Está fraco." 
Doeu.
E não pelo ego.
Nem por questionar as minhas capacidades.
Doeu porque fui eu que escrevi.
E doeu ainda mais porque foi a minha mulher que me respondeu.

Ela não falha a avaliar o meu trabalho.
É crítica, água transparente.
Mas não é dura.
Desta vez, ela achava que estava a falar do agente.

Irónico porque era uma tentativa.
Queria recuperar um prazer.
Escrever.
Escrevi porque sentia saudades.
E o email foi péssimo porque deixei sentir saudades.
Entreguei-me à máquina e paguei em kg de talento.

Fechei o email,
E disparei todos os alarmes.
Porque raio fui entregar o prazer à máquina?
Foi o único?
Estarei a ficar mais burro?
Burro?

Devolve-me, por favor, o meu intelecto.

Sofri em silêncio.
No jantar, nem toquei no assunto.
Fingi não ter importância.
Escrita é clareza de pensamento.
E eu investi demasiado tempo para ser bom a escrever.
Tenho textos que me orgulho.
Não pela porcaria das métricas.
Mas porque os leio e não faço a ideia de como os escrevi.
Muito menos, de como os voltar a escrever.
É como se fosse um outro eu.
Capaz.
Fluido e sem esforço.
Pelos vistos, perdi-o.
Deixei-o escapar.

E a culpa não é da máquina.
Essa (ainda) faz o que eu mando.
A culpa é minha.
E não é recente, já a deixei escapar há uns anos.
Deixei o ritmo.
As frases curtas e ponderadas.
Cheias de intenção.
Deixei o que gosto, pelo que resulta.

Mas resulta? Para quem?
Quem quer ler assunto sem alma?
Frases de atropelamento.
Ruído disfarçado de prosa.
Contagem de palavras, em vez de palavras a contar.

Ao escrever um desses textos gloriosos,
A minha mulher tocou-me no ombro.
Que estás a fazer?
A escrever.
Não! Tu estás às gargalhadas.
Estou?
Estás, até vim ver o que se passa.
Desculpa, não fazia ideia.
Não tem mal.
Continua.
Ambos sabíamos.
Perdi-me.
O texto dominou-me.
Levou-me e devolveu-me já com uma versão completa.
Cheia de mim.
Mas como se eu fosse incapaz de a escrever.

Não é sobre ser escritor.
Ou sobre a qualidade do texto.
É sobre escrever.
Frase por frase.
Perder-me enquanto o faço.
Enviar.
E receber uma resposta da minha mulher.
"O teu agente melhorou. Parece que foste tu."

Abraço, Luís Diogo


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