Lancei um podcast com zero trabalho
Hey,
Esta semana lancei um podcast.
Procura SuperHuman no Spotify, na Apple, ou em praticamente qualquer aplicação onde costumas ouvir, e lá está. Estes áudios, que até agora só te chegavam pela newsletter, aterram agora diretamente no teu feed. Podes ouvir no carro, a treinar, ou ignorar onde quiseres.

Custou-me uma manhã de implementação. Depois disso, zero trabalho.
O podcast não é o ponto. Nunca quis ter um podcast, não estava na minha checklist, e continua a não ser uma prioridade. O ponto é como nasceu, e o que isso diz sobre onde devias colocar a tua energia.
A pergunta errada que toda a gente faz
A maioria olha para a IA pela lente das possibilidades que ela traz ao negócio. Vídeos gerados por IA? Vou começar a fazer vídeos. Imagens? Vou criar imagens. Faz-se porque dá, não porque resolve.
Isto cria trabalho. Obriga-te a aprender uma capacidade que não tinhas, e a assumir mais um compromisso a competir com o resto da tua semana. Se não ganhas a vida a fazer vídeos, estás a empilhar trabalho em cima de uma operação que ainda não otimizaste.
A pergunta certa é a inversa: o que é que eu já faço, todas as semanas, onde podia encaixar IA?
Eu escrevo uma newsletter. É um compromisso assumido, um custo que a empresa já carrega, um processo que pode beneficiar da otimização que a IA consegue entregar. É aí que está o retorno. Não em inventar uma atividade nova, mas em pegar no que já te consome tempo e remover peso.
Acrescentar novidade a uma casa instável é receita para dar merda.
Os processos de IA que contam são os menos sexy
A documentação de uma feature, a transcrição de uma reunião, a publicação de um áudio numa plataforma. Trabalho chato, invisível, que ninguém celebra.
Gordura. E onde existe gordura, existe margem para libertar.
O podcast foi isso.
Eu já tinha um workflow inteiro a funcionar. O áudio é transcrito, a transcrição gera a newsletter, há edição, validação, publicação, e no fim um passo de aprendizagem com base nas minhas correções. Cada execução deixa a próxima melhor.
Para ter o podcast, não construí nada de raiz. Acrescentei um passo ao comando de /publicar que já existia. Agora ele pega no áudio original, publica-o numa plataforma de podcasts, e essa plataforma trata de o fazer chegar a todo o lado.
O resultado foi ampliar muito a distribuição daquilo que já fazia, sem uma única hora de trabalho recorrente.
Melhor, em vez de te obrigar a ir ao meu site ouvir um áudio, chego ao feed onde já estás. Isto é uma mecânica absurda. Investimento perto de zero, retorno a compor-se ao longo de centenas de episódios, sem trabalho acumulado.
É aqui que a IA fica interessante. Frágil a criar, absurda a distribuir.
A parte criativa deste áudio é 100% analógica. Escrevo num papel o que quero dizer, abro o microfone e falo. É a única peça que não delego, porque no dia em que tudo for artificial deixa de haver razão para alguém me ouvir.
Tudo o que vem depois entrego à IA sem pensar duas vezes. Transcrever, adaptar, publicar, formatar, fazer chegar ao sítio certo. Não porque é mágico. Porque faz melhor do que eu faria com o tempo que tenho disponível.
E faz melhor porque não copia, traduz para o canal. A descrição do episódio não é o texto da newsletter colado. É escrita de raiz, com as boas práticas de um podcast. A replicação deixou de ser duplicar e passou a ser adaptar.
Isto vai muito além do conteúdo. Imagina uma reunião de formação com a equipa, gravada. A transcrição, por si só, não é um guia. É uma conversa solta, com piadas pelo meio. Mas o sumo está lá todo.
Passa pelo workflow certo e transforma-se num guia da empresa, montado para quem chega a seguir gastar o mínimo de calorias a perceber tudo.
A mesma matéria-prima, vários produtos. É a isto que chamo distribuição.
Onde isto fica poderoso
A melhor parte é que isto desmonta o mito dos 10x.
Quando se fala num developer dez vezes mais produtivo, quase toda a gente imagina alguém a programar dez vezes mais depressa. Mas a maximização raramente vem só daí. Vem das subtarefas à volta. A documentação, os registos, a passagem de contexto, tudo o que rouba energia ao trabalho principal e ainda costuma ficar mal feito.
A IA não precisa de substituir o developer para o multiplicar. Basta tirar-lhe das mãos as fases onde ele não é especial.
Vejo a IA como vejo a contratação de pessoas. Sempre que contratei alguém para criar algo de raiz, deu asneira. Falta-lhe contexto, passa meses só a absorvê-lo. Trazer alguém para escalar e executar melhor o que já está definido, isso resulta sempre.
Com a IA, o princípio é o mesmo. Não delegas a criação. Delegas a execução de uma fase.
Isto é o caminho, e quase ninguém o anda a percorrer. Andam a romantizar a IA, a fazer barulho com o que é vistoso, a aumentar a distância entre onde estão e onde acham que deviam estar. Eu prefiro mostrar-te o aborrecido que funciona.
Por isso, antes de perguntares o que a IA te deixa criar de novo, faz outra coisa.
Pega no teu processo, descreve-o ao Claude tal como ele acontece, e pede-lhe para mapear onde podias inserir IA sem perder a essência. Depois pede-lhe para transformar isso num workflow repetível. E antes de implementares, questiona a resposta. Manda-o pesquisar se o que sugeriu está certo. Gastas uns tokens a mais e sais sempre mais seguro.
Vais surpreender-te com a quantidade de gordura que tens à vista e nunca lhe tocaste.
O podcast levou-me uma manhã e não me dá mais trabalho recorrente. Não foi a parte sexy da IA que o construiu. Foi a parte que ninguém quer fazer.
Que luxo.
Abraço,
Luis Diogo