Onde é que o humano tem de estar

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Hey,

Esta newsletter foi escrita em 34 minutos.

Não a escrevi frase a frase, mas também não pedi à IA que a escrevesse por mim. Incluí o tempo do áudio, a edição, a publicação e tudo o que foi preciso até chegar à tua caixa de entrada.

A semana passada partilhei contigo uma decisão: parar de empurrar o output e investir na máquina que o produz.

Esta newsletter é a primeira peça dessa máquina.

Exemplo concreto: o workflow desta newsletter

A newsletter que estás a ler nasce de um áudio, o mesmo que partilhei aqui. A partir do momento em que pouso o telemóvel, corro um comando: `/news-gerar`

Esse comando dispara quatro coisas por ordem: transcreve o áudio; escreve a primeira versão da newsletter com base no meu guia de estilo e em tudo o que já escrevi antes; faz uma edição estrutural ao arco narrativo e à densidade; e revê o texto para corrigir gramática, pontuação, redundâncias e advérbios. No fim, guarda duas cópias, uma para eu editar e outra para ficar intocável.

Aqui volto a entrar. Leio, corto, reescrevo o que não soa a mim, limo o que está demasiado genérico e mudo a ordem se a ideia ainda não estiver a bater certo. Quando estou satisfeito, corro o segundo comando: `/news-publicar`

O Agente vai à aplicação, faz upload do áudio, cria o draft, coloca tudo no sítio certo, formata. Em 10 segundos, sem eu sair do meu editor, a newsletter está pronta para enviar.

Falta o passo que mais ninguém faz. Corro o terceiro comando: `/news-compound`

Ele compara a cópia intocada do draft com a versão final que editei, lê toda a conversa e percebe o que mudou. Aprende com as minhas correções. Atualiza o guia de estilo. Atualiza o ficheiro de aprendizagens. Na próxima execução, é melhor do que era hoje.

A cada áudio, este playbook fica mais próximo da forma como penso e escrevo. Daqui a 30 ou 40 execuções, é provável que edite cada vez menos. É como se cada newsletter estivesse a treinar a próxima.

Tens aqui o mini-playbook da newsletter: - news-gerar - news-audio - news-draft - news-edit - news-revisar - news-publicar - news-compound

Onde é que o humano tem de estar

Esta foi a pergunta que me tirou do automático.

Não é "como tiro o humano do loop". É "onde é que o humano não pode sair". E isto é difícil. Saber construir é a parte mais fácil de todo o processo.

No workflow desta newsletter, o humano tem de estar em dois sítios. No áudio, porque é o RAW, uma experiência pessoal a passar para o papel, e nenhum modelo do mundo vai inventar isto a partir do que existe na internet. E tem de estar na edição final, porque o sistema ainda não está afinado para eu poder sair. Vai estar, só não hoje.

Tudo o resto é entregue à IA: transcrição, primeira escrita, edição estrutural, revisão, publicação, aprendizagem para o futuro.

Mas a newsletter é só o exemplo pequeno.

O princípio é maior: em qualquer processo, há uma parte onde o humano cria valor e há uma parte onde está só a transportar informação, repetir passos, verificar coisas que o sistema já sabe verificar, copiar de um lado para o outro, formatar, publicar, atualizar estados.

O problema é que, na maioria das empresas, estas duas coisas estão misturadas e chamamos "trabalho" a tudo. Ao julgamento e ao copy-paste, à decisão e ao upload, à experiência e à formatação. E quando tudo parece trabalho, é difícil perceber o que devia continuar no humano e o que devia sair dele.

É isso que estou a estudar para implementar na WhiteFlow. Lá, o desafio tem outra dimensão e responsabilidade, mas a pergunta é exatamente a mesma: onde é que o humano tem mesmo de estar?

Pensa nos teus colaboradores. Quantos deles, antes de executar um processo, leem o procedimento para ver se mudou alguma coisa desde a última vez? Quantos registam o que aprenderam para a próxima execução ser melhor? Quantos atualizam o sistema quando descobrem uma forma melhor de fazer? Quase nenhum. Não por falta de competência, mas porque os processos, como existem hoje, não foram desenhados para aprender.

Um procedimento parado num PDF não melhora. Uma checklist esquecida numa pasta partilhada não se adapta. Um documento interno não aparece no momento certo, dentro da ferramenta certa, a executar o trabalho certo.

Um playbook muda isso.

Um playbook é uma coleção de comandos, skills e sub-agentes para um motor de IA. Instala-se uma vez e cada atualização chega a quem o usa. É o compactador de processos de uma empresa, vivo, dentro das ferramentas que a equipa já usa todos os dias. E, ao contrário do procedimento que dorme num PDF na pasta partilhada, executa-se sozinho.

A grande dificuldade não é construir. É saber o que é possível. Sem isso, vais continuar a meter o humano no copy-paste, no upload manual, na verificação que o sistema já fazia, na formatação, no transporte de informação entre ferramentas. E é aí, exatamente aí, que o humano deixa de agregar valor onde importa.

A inteligência artificial é a ampliação de talento individual. Mas para ampliar, tenho de proteger esse talento e colocá-lo no sítio certo. O resto, troco por tokens.

Esta newsletter é só a primeira peça. Vem aí o playbook do YouTube, o de métricas, o de cada estratégia que decidirmos executar. E em paralelo, está a nascer o da WhiteFlow, onde o nível de responsabilidade é outro.

Se isto funcionar, a pergunta deixa de ser "quanto consigo produzir com IA". Passa a ser outra: onde é que o meu tempo ainda é insubstituível?

Nesta newsletter, a resposta foram 34 minutos.

Abraço, Luis Diogo